Capítulo 2
Murat tinha razão, estava mesmo sendo um longo dia. No momento do intervalo entre as aulas, Derya e Ayla foram até a cantina tomar um chá-preto. Murat se aproximou com mais dois amigos e colocou o celular de Derya em cima da mesa.
- Ah! Meu celular, que saudades! - disse Derya.
- Por que você estava com o celular dela? - perguntou Ayla, confusa.
- Peguei ontem para evitar que ela contasse a você que estávamos de partida.
- Nossa! Não sabia que você poderia ir tão baixo, Murat. - falou, indignada.
- Mais baixo do que você, falsificando um atestado? Acho que não.
- Ayla, me desculpe! Ele ameaçou contar para o vovô se eu não dissesse o que ele queria saber!
- Não tem problema! Eu já fui e me diverti muito. Comprei tudo que queria! Estou extremamente satisfeita. - riu amplamente.
- Só você para desafiá-lo desse jeito, você é louca! Se visse a fera que chegou ontem à porta da minha sala, aposto que não se sentiria tão vitoriosa. Pensei que ele fosse me engolir viva.
- E comigo então, achei que ele arrancaria meus olhos e jogaria para as gaivotas. - disse Ozan, sentando-se ao lado dela.
Ozan era seu outro primo. Mais novo que elas, era um doce de rapaz. Paciente e tranquilo, era muito querido por todos. Aquele era seu primeiro ano na faculdade; cursava ciência da computação e, assim como Derya, não ousava desobedecer a uma ordem de Murat.
- Aonde você foi? - perguntou ele.
- Fui fazer compras. – respondeu.
- Só isso? Então por que você não quis que Murat fosse?
- É! - Murat vinha se aproximando novamente – Por que que você não quis que eu fosse?
- Porque fui comprar lingerie. - respondeu ela, deixando Ozan e os amigos de Murat embaraçados e sua prima, boquiaberta. Murat não se abalava com as ousadias de Ayla, sabia que ela o estava provocando para descontar o que tinha feito com o celular de Derya. Murat a olhava profundamente em seus olhos e Ayla previa uma discussão quando estivessem à sós.
- Não seria a primeira vez que eu lhe acompanharia em uma compra assim! - disse ele.
- Mas essas eram mais... - não terminou a frase, apenas sorriu deixando subentendido.
Murat não sabia se respirava fundo para não pensar em Ayla vestindo uma lingerie mais ousada ou se a arrastava dali para lhe dar umas boas palmadas.
- Alguém especial, Ayla? - perguntou um dos amigos que acompanhavam seu primo.
- Talvez! - disse, enigmática, sem tirar os olhos dos de Murat.
Ele nada disse, apenas deu um sorriso sarcástico e afastou-se, sendo seguido pelos amigos.
- Ayla, você enlouqueceu? - falou Derya. - Você sabe que ele não vai deixar por isso mesmo!
- Eu não me importo! - respondeu.
- E não deve mesmo. - apoiou Ozan. - Murat sempre pega leve com você, Ayla. Derya ficou sem o celular mesmo depois de dizer onde você estava, mas é você? Ficou sem o quê? Qual foi o seu “castigo”?
- Eu tive que andar durante quase duas horas. - ela falou.
- É, mas você já tinha andado muito mais que isso nas compras. Derya ficou sem poder se comunicar o dia todo. - ponderou.
- Então, você acha que eu deveria ter um castigo mais duro. Tamam, entendi!
- Não, eu só quero te mostrar que você é a preferida de Murat. Não importa o que você faça, ele nunca vai te entregar ao vovô e nunca vai te dar um castigo à altura.
Ayla achou melhor não contar que quando chegara em casa, sua refeição já estava pronta, lhe esperando, e que à noite Murat fez pipoca para eles assistirem a um filme.
- Murat não tem preferidos, ele tem vítimas! - disse Derya. - E se eu fosse você, tomaria cuidado com ele. Toda paciência tem limites.
E finalizando o assunto, voltaram para a aula.
Seria ótimo se Murat tivesse mais uma ocupação além da vida dela: talvez se ele praticasse um esporte ou se fizesse mais outro curso. Até para ele sair com os amigos era complicado, já que deixava tudo para o fim de semana quando voltava para a casa dos pais. Difícil de se livrar de Murat, mas pensaria em algo bem criativo e que ele não pudesse recusar. Dessa vez, não diria nada a Derya, faria tudo por conta própria.
Era fim de semana e estavam todos reunidos na casa do patriarca da família. Mustafá adorava ter toda a família em volta de si. Não tinha mais tanta mobilidade nas pernas já cansadas, por isso evitava andar e passava a maior parte do tempo em sua poltrona. O idoso vivia com a nora, Selin, mãe de Ozan, em Üsküdar, distrito que ficava na parte asiática de Istambul. Viúvo há muitos anos, preferiu não se casar novamente, preservando a memória da sua única esposa e mãe dos seus três filhos: Gökse, o mais velho e pai de Murat e Derya; Eren, o filho do meio e pai de Ayla e Ahmed que, infelizmente, havia falecido há muitos anos, mas lhe presenteara com um herdeiro, Ozan, que criou como seu próprio filho. Apesar de amar a todos, ele não escondia sua predileção por Murat, seu neto mais velho e que lhe dava muito orgulho. Olhava para Murat e via-se quando mais jovem, pois ele também fora encarregado de cuidar dos irmãos e primas que moravam mais próximas de sua casa e que eram solteiras. O rapaz era mais sortudo que ele, só tinha três para se responsabilizar. Mustafá, em sua época, tinha mais que o triplo disso, apesar de que só Ayla valia por todas elas.
Olhava para a neta que terminava de lavar a louça do almoço na cozinha. Tinha crescido, era quase uma mulher. Talvez ela desse todo esse trabalho porque não tinha muita coisa para fazer. Se a mantivesse ocupada com algo, talvez essas ideias loucas que tinha acabassem se dissipando.
- Murat? Venha aqui. - chamou o senhor idoso, mas muito lúcido e perspicaz.
- Sim, vovô, o que deseja? - perguntou ele de pronto.
- Me fale sobre Ayla. Como ela vem reagindo ultimamente?
Murat olhou-a na cozinha, entretida com seus afazeres, e suspirou pesadamente.
- Bem, vovô... — iniciou ele. — O senhor conhece a sua neta, sempre geniosa, mandona, caprichosa, egoísta, manipuladora e egocêntrica! – disse, dando um meio sorriso com a expressão assustada do avô.
- Ótimas qualidades para uma mulher! – brincou Mustafá. - Meu filho, venha aqui. - chamou o ancião e ele obedeceu, sentando-se aos pés do avô.
- Você acha que Ayla estaria pronta para um noivado?
Murat se assustou com a pergunta, imaginando que o avô já tinha um pretendente em vista para a prima. Seu coração se comprimiu ao imaginar Ayla dormindo em outra cama que não fosse a sua.
- Não, não acho! — disse sério. — Ela é muito imatura, precisa de mais experiência de vida.
- E você? - perguntou.
- Eu prefiro terminar a faculdade, falta pouco agora. Preciso me dedicar!
- Certo, mas não demore muito para encontrar uma boa mulher. O tempo passa e um turco precisa ter filhos para dar continuidade à sua existência.
- Certo, vovô, mas é que no momento nenhuma mulher despertou meu sincero interesse. - disse para, em seguida, involuntariamente olhar na direção de Ayla, que também o estava observando. Ficaram apenas alguns segundos com os olhares presos um no outro. Ela lhe sorriu e Murat correspondeu com um leve curvar de lábios.
Mustafá observou-os com curiosidade. Murat tentou ser discreto, desviando o olhar, mas o longo suspiro que se seguiu após a cena alarmou o patriarca que percebeu o olhar e sorriso trocados pelos netos. Aquele não era o olhar de sempre, havia algo diferente. Preferiu não comentar nada naquele momento. Durante a semana conversaria com ele à sós. Já vira aquele tipo de reação antes e suas consequências foram árduas à família, por isso, seu pai tinha proibido envolvimentos entre parentes e sua ordem era obedecida até hoje.
Sabia que seu neto não iria contra as regras, ele era muito centrado, porém, precisava reforçar aquela ideia; o amor fazia homens e mulheres perderem a noção dos limites, não queria que isso acontecesse com Murat.
- Filho, — chamou Mustafá, trazendo Murat de volta à realidade. — quero que você venha aqui amanhã à tarde para conversarmos um pouco! Só você e eu, pode ser?
- Claro, como o senhor quiser! - respondeu e retirou-se.
Mustafá também chamou Ayla para uma conversa. Queria sondar até onde aquela ligação era perigosa.
- Minha querida, me fale, como vão os estudos?
- Bem, vovô, não tenho muitas dificuldades, adoro engenharia. Tudo se torna fácil quando gostamos do que fazemos. – disse, sorrindo.
- Sim, é verdade! – respondeu. - Você não está dando muito trabalho ao seu primo, não é?
Ela mordeu o lábio inferior e levantou uma sobrancelha, pois não poderia mentir para o avô. Ele logo percebeu a sua recusa em responder e lhe disse:
- Ayla, o que você fez dessa vez?
- Nada demais, só as mesmas coisas de sempre. – desconversou. - O problema é que Murat está piorando a cada dia. Ele é muito inconveniente, vive aborrecido, então tudo que eu faço, para ele, é errado. Ele sempre procura alguém para descontar suas frustrações e eu sou sempre a vítima.
Mustafá riu com a última argumentação. Ela poderia ser tudo, menos vítima!
- Com o que ele está frustrado? - quis saber.
- Não sei se ele está, mas aparenta! – respondeu.
- Minha flor, você e ele precisam conversar, tentar se entender, negociar... Sabe que ele é responsável por você. Qualquer coisa de ruim que venha a lhe acontecer, ele será responsabilizado, então claro que ele vai ficar estressado se você não cooperar. Tente ser mais compreensiva, menos audaciosa.
- Não consigo, vovô! Ele desperta essa raiva em mim com seu jeito tirano. Eu amo o Murat, mas às vezes ele me tira do sério.
- Claro que você o ama. Ele é seu primo, quase um irmão, vive com você a maior parte da sua vida. Ele também te ama e tenta cuidar de você da melhor forma possível e pelo bem de vocês dois, eu peço que tanto você quanto ele tentem se entender.
Mustafá viu que nada tinha nela que denotasse um interesse maior que o normal por seu primo, diferente do que aparentemente Murat sentia. Não que isso fosse um crime, era até muito normal ele se sentir assim. Ayla era uma jovem linda, com todos os atrativos e tentações físicas imagináveis para um homem. Seu espírito livre e questionador encantaria até os mais experientes, tornando-a uma presa fácil.
Também por essa razão não deixava Murat voltar para casa dos pais e monitorá-la de longe. Os homens poderiam enganá-la fácil e aproveitarem-se de sua inocência. Derya era muito bonita também, mas, diferente da prima, era mais reservada e tinha a mãe ao seu lado. Já sua nora Fatma, mãe de Ayla, sempre trabalhou fora, mais um motivo para sua neta ter essa mania de falar em independência.
Ele não era contra as mulheres que trabalhavam ou estudavam, tinha orgulho das netas que logo mais teriam um diploma e uma profissão, mas elas só deveriam trabalhar fora se conseguissem dar conta das suas obrigações como esposa e mãe. Queria muito que elas se interessassem em aprender a ser uma boa dona de casa também. Derya já mostrava seus dotes desde criança, mas Ayla, apesar de conseguir fazer tudo, não gostava da ideia de casamento e isso o preocupava bastante.
No fim da tarde, Ayla se despediu carinhosamente da tia e do avô, que estavam voltando para sua residência em Ortaköy. Murat já estava dentro do carro, era ele quem os conduziria de volta. Sua mãe pediu para que ela fosse no banco da frente com ele, enquanto ela e seu pai iriam no banco de trás. Assim que chegaram em casa, ela tomou um banho e foi para a varanda no terceiro andar. Logo Murat apareceu; ele usava uma camisa azul e uma calça de moletom preta. Estava muito bonito com um sorriso enigmático e um olhar divertido. Ela não pôde deixar de provocá-lo.
- Viu um passarinho verde?
Ele riu.
- Melhor! – respondeu enigmático, já pronto para o ataque. - Vovô veio me perguntar sobre você hoje! – disse, dirigindo-se a ela
O sorriso de Ayla morreu nos lábios. Ajeitando-se na cadeira, perguntou, preocupada:
- O que ele queria saber?
Murat sentou-se à sua frente, estudando as feições dela. Respondeu à pergunta divertido com a preocupação estampada no rosto lindo de Ayla.
- Sobre seu comportamento, criança! - ela lhe lançou um olhar fulminante e ele prosseguiu. - Ele queria saber se você estava pronta para casar! — disparou.
- O QUÊ? – gritou, olhando para ele. Estava em estado de choque! - Mas por que ele perguntaria isso? Vovô sabe que quero terminar meus estudos e não quero casar nem tão cedo!
- Não sei, mas conhecendo o vovô, eu diria que ele já deve ter alguém em mente para você. - Murat sabia que a conversa não tinha sido bem essa, mas se divertia muito causando pânico em Ayla; que ela experimentasse um pouco do próprio veneno.
- O que você respondeu, Murat? - perguntou Ayla, extremamente apreensiva.
- Disse a verdade! - fez uma pausa de propósito para deixá-la mais nervosa e então continuou: - Que você é egoísta e egocêntrica demais para ser esposa de alguém.
Ayla ficou imóvel. Na verdade, ela queria se casar, ter filhos, mas não agora, e não se sentia egoísta e muito menos egocêntrica. Sabia do seu valor e tinha autoestima. No fundo, sentiu-se ferida com as palavras dele. Mas não o deixaria sem resposta.
- Bem, você é o mais velho, deveria casar primeiro! Por que ainda está sozinho se é tão perfeito?
"Por que a mulher que eu amo não posso ter". Essa era a resposta que ele queria lhe dar, mas não podia. Tentando soar o mais sincero possível, disse:
- Estou sozinho por que você consome tempo demais da minha vida. Talvez se você fosse como Derya, eu pudesse relaxar e viver um amor.
- Ah, claro! A culpa é minha por você estar solteiro. Tudo é culpa minha, suas preocupações, suas derrotas, seus fracassos. – disse, gesticulando com as mãos para dramatizar. - Já parou para pensar que o problema pode ser você? Mulheres não gostam de homens mandões e controladores que acham que têm sempre razão e se sentem os donos do universo!
- Canım Benim, como você pode saber do que as mulheres gostam? Você é apenas uma garotinha!
- É? Sou? - Ayla questionou, colocando as longas e torneadas pernas em cima das dele. Murat sentiu o corpo reagir com a provocação. - Você tem certeza disso?
- O que você está tentando dizer? – perguntou, percebendo que havia mais do que ela estava contando, ou seria apenas para deixá-lo curioso?
- Eu não estou querendo dizer nada, apenas te fiz uma pergunta! – deu de ombros com bom humor.
- Ayla, não brinque comigo, não me faça de bobo! Eu ainda não esqueci o assunto da lingerie, só não estou a fim de discutir hoje. - advertiu.
Rindo alto, Ayla levantou-se e posicionou-se atrás da cadeira dele. Abraçou-o por trás e lhe deu um beijo no rosto. O contato dos lábios macios dela em sua pele queimava como brasa.
- Eu não preciso fazer esforço para você parecer um bobo, Murat, você mesmo se coloca nessa posição!
Ele teve que se controlar para não a segurar em seus braços e beijá-la. Ao contrário do que estava dizendo, Ayla não era uma menina, era uma verdadeira mulher. A voz provocante invadia seu interior e acelerava seu o coração. Tinha um corpo lindo, que em muitas noites encaixava-se ao seu, testando seu autocontrole. Sem dúvidas, Ayla estava pronta para o amor. A personalidade forte era sua marca registrada. Corajosa, desafiava-o à altura, lhe causava raiva, mas também muita admiração.
Sem soltá-lo, ela disse:
- Murat, você se lembra de quando éramos crianças? Ficávamos horas brincando aqui!
- E quando foi que você deixou de ser uma? - provocou e levou uma tapa nas costas.
- Cretino! - Ayla o soltou e virou de costas para sair, mas Murat levantou-se rápido e segurou-a, obrigando-a a vir para seus braços. Levou-a para mais perto da varanda e, olhando para as luzes dos navios que cruzavam o mar, falou sobre suas memórias.
- Lembro de você quando pequena. – virou-se para ela. – Com um vestido de cetim rosa, brincávamos no parque e você acabou tropeçando em uma poça de lama, melando toda sua roupa. - riu com uma careta que ela fez. – Nossa, Ayla! Você chorou muito.
- E você tirou sua camisa para limpar meu vestido. – disse, rindo. - Acabou se melando todo junto comigo. - Ayla riu com gosto e Murat apenas ficou observando. - Que foi? Não gostou de saber que você é bobo desde sempre?
- Não muito! - respondeu.
Eles ainda estavam abraçados, um de frente para o outro. Murat estava aproveitando cada momento de alegria que Ayla lhe proporcionava. Durante o dia, quase o fazia enfartar de raiva, mas à noite, ela era a criatura mais angelical desse mundo. Os lindos cabelos negros voavam com a força do vento, seus olhos castanhos brilhavam e o sorriso era cristalino e sincero.
De repente, a expressão alegre de Ayla mudou. Ela tornou-se triste e distante, então a ouviu perguntar:
- Murat, você acha mesmo que sou egoísta e egocêntrica? - percebendo que suas palavras a magoaram, tratou de contornar a situação.
- Só comigo! - riu.
- Ah! Então não tem problema, é bem feito para você. - e voltou a rir.
Era horrível não poder dizer a ela como se sentia. Quando o avô perguntara sobre Ayla estar pronta para casar, ele levou um susto. Sabia que ela não poderia ser sua, mas não estava pronto para perdê-la. Não conseguia imaginar outro homem beijando seus lábios, tocando sua pele, olhando em seus olhos. Pensando nisso, ele sentiu uma pontada forte no coração. Colocou a mão em seus cabelos e puxou-a gentilmente de encontro a seu peito, apertando-a forte como se a qualquer momento pudesse perdê-la.
- Murat, se você está querendo me deixar sem ar, devo lhe dizer que está funcionando! - disse ela.
Ele afrouxou o abraço rindo, mas não a soltou. Teria que fazer algo a respeito do que sentia. A cada dia ela o intoxicava mais com sua fúria e seu carinho. Ayla era muito diferente de Derya, sua irmã. Ela não guardava rancor, aprontava todas, eles brigavam e, um tempo depois, ela estava à sua porta, dizendo que o amava, dando-lhe abraços, beijos e presentes. Ayla sempre fora assim, e isso o cativava. Derya até agora estava sem falar com ele por causa do celular.
Ayla era como um cavalo selvagem: rédeas iriam prendê-la por algum tempo, mas depois que conhecesse a liberdade, jamais voltaria ao curral, porém, se lhe dessem amor, um motivo para ficar, ela sacrificaria tudo que havia almejado. Ele a conhecia bem, melhor que seus tios, melhor que Derya, melhor que seu avô.
Gostava das brigas que tinham. Ayla era muito geniosa. Viu fogo em seus olhos quando rasgou o papel com o número de telefone do rapaz. Com raiva, era ainda mais linda, concluiu. Lembrou-se dos seus amigos de turma. No começo, pensavam que ela fosse sua namorada. Quando descobriram o parentesco, logo trataram de obter informações sobre ela, seus gostos principalmente. Murat tratou de cortar qualquer iniciativa que eles tivessem programado, avisou-os que ele era seu tutor e que ninguém chegava a Ayla sem passar antes por ele e quem tentasse seria seu inimigo. Todos perceberam que Murat não estava para brincadeiras.
Via-os admirar e comentar sobre ela, mas não tinham coragem de se aproximarem. Sabiam o quanto Murat era cuidadoso com a prima; engraçar-se com ela era problema na certa e ninguém queria enfrentar a fúria dele. Corajosa mesmo, só Ayla.
Viu-a bocejar. Colocou as mãos em seu rosto e disse:
- Acho que é melhor ir para cama, canım.
- A minha ou a sua? - ouviu-a perguntar inocente, porém fazendo Murat se arrepiar.
- A sua! - respondeu a contragosto.
- Quer dizer que hoje não tem filminho? - disse com voz manhosa e fazendo bico.
- Não! Sem filminho hoje.



Nenhum comentário:
Postar um comentário