Amor em Istambul - Capítulo 3

quinta-feira, 2 de junho de 2016


Capítulo 3


No dia seguinte, Murat foi à casa do avô como havia prometido. deixou a irmã e a prima em Sultanahmet e seguiu para Üsküdar.

Chegando lá, encontrou o avô à sua espera na varanda. Cumprimentou-o levando a mão do patriarca à sua fronte.

- Sente-se, Murat. - convidou o Mustafá.

Ele se sentou e ouviu-o dizer:

- Meu filho, eu quero lhe contar uma história sobre a nossa família. - ele ficou curioso e o idoso prosseguiu. - Há muito tempo atrás, quando eu era apenas uma criança, morava em uma casa muito diferente dessa, no interior do nosso país, com meus pais, irmãos e uma tia solteira. A minha tia era uma mulher muito bonita, tinha muitos pretendentes e meu pai escolheu um para desposá-la, porém, ela se apaixonou por outro homem, um primo dela. Eles sabiam das regras e costumes, porém, fugiram juntos quando a família foi contra essa união. Meses depois, ela voltou. Estava grávida. Ele a havia trocado por outra, uma estrangeira. Passou um tempo, o bebê nasceu. Quando ele soube, veio conhecer o filho, mas não quis vê-la. Disse que levaria o menino embora para outro país. Queria formar uma família com sua nova esposa, mas meu pai não permitiu, então ele se foi com a promessa de voltar. Ela teve tanto desgosto, que foi definhando até morrer, então ele voltou e, com a justiça ao seu lado, pôde levar o filho embora. Isso foi uma grande dor para todos. - Murat ouvia atentamente em silêncio, mas entendia bem onde o avô queria chegar lhe contando aquela história. Ele era um homem muito inteligente e perspicaz. – Murat, a união entre primos foi proibida em nossa família há muito tempo pelo meu bisavó, que era católico. Apesar de a sua religião não proibir essa prática, a união nunca foi bem vista entre os seus. Então, todos concordaram que não faríamos casamentos consanguíneos, católicos ou muçulmanos. Abrir mão disso é abrir mão das regras e tradições da nossa família. Além disso, eu tenho um milhão de motivos para provar que relacionamentos entre primos não é a melhor escolha.

Mustafá olhava para o neto com muita seriedade. Sabia que Murat era um homem honrado. Tinha caráter. O que foi confirmado por suas palavras após o discurso do avô. Com um profundo suspiro, Murat falou:

- Não sei como isso aconteceu. Não era minha intenção. Minha prioridade sempre foi cuidar dela, protegê-la. Não imaginei que um dia me sentiria assim por Ayla. - falou com sinceridade, abaixando a cabeça.

As suspeitas de Mustafá tornaram-se certeza. O que viu nos olhos de Murat no dia anterior era amor.

- Murat, não se culpe, não o chamei aqui para julgá-lo. Você é meu neto amado, sempre honrou a nossa família e sei que vai continuar nos dando muitas alegrias. - disse Mustafá, levantando o rosto do neto. – Mas você precisa entender que nada pode haver entre você e Ayla. Ela nunca deve saber como você se sente e se for preciso, você deve entregar seu cargo de tutor. Convocarei outra pessoa, nossa família é grande. - Mustafá viu a desolação nos olhos do neto, então decidiu seguir por outro caminho. - Bem, acredito que não precisaremos chegar a tanto, eu tenho uma solução para isso. Em breve você saberá. Por ora, lhe peço que não comente nada sobre a nossa conversa, nem mesmo com seu pai.

Murat esperava que a solução do avô não fosse arrancar-lhe o coração. Sabia que o avô era implacável em suas decisões. Poderia mandar Ayla ou ele para muito longe um do outro.

- Sim, senhor. - respondeu apenas.

- Ayla não é mais uma menininha, Murat, ela está se tornando uma mulher, uma bela mulher, e vocês passam muito tempo juntos. Ela gosta de desafiar você e uma recusa feminina pode ser muito encorajadora para um homem que gosta de desafios, como você. Qualquer um sentiria o que você está sentindo, não é o fim do mundo. Mas quero que saiba que não deixarei a história se repetir. - Murat olhou para o avô, sério. Jamais faria mal a Ayla. - Acho melhor você voltar para casa. Está ficando tarde e Ayla sozinha com Derya nunca é uma boa ideia. - falou o avô entre risos.

Murat apenas assentiu e desceu as escadas da varanda em direção ao seu carro.

- Filho. - chamou-o Mustafá e ele virou-se. - Você sabe que ela não sente o mesmo por você, não é?

Murat sentiu seu coração despedaçar ante a observação do avô, mas manteve-se firme e respondeu:

- Sei!

Mustafá assentiu. Murat seguiu seu caminho. Já no carro, sozinho, sentiu muita dor no peito. As palavras do avô ecoavam em sua mente. Sentia que tinha falhado como neto, filho e tutor. Seus olhos ardiam pelas lágrimas que ele não deixava escorrer. Tinha medo dos próximos passos do patriarca, ele poderia convencer seus pais a qualquer coisa pela tradição da família.

Chegando a Sultanahmet, Murat ligou para Ayla.

- Desça, já estou aqui embaixo.

- Mas você não vai nem entrar? - ela perguntou.

Sem responder, ele desligou.

Ayla olhou para o celular e fez uma careta.

- O que aconteceu? - perguntou Derya.

- Nada, apenas seu irmão sendo o tirano de sempre. - suspirou Ayla. - Tenho que ir, ele está me esperando lá embaixo, não vai entrar!

Derya levantou uma sobrancelha, estranhando a atitude do irmão, mas achou melhor não comentar nada. As primas se abraçaram e Ayla se foi.

Quando chegaram em casa, Murat foi direto para seu quarto. Ayla estranhou a atitude do primo, já que veio todo o percurso em silêncio. Geralmente, faria um monte de perguntas sobre o que ela e Derya estiveram fazendo em sua ausência. Pelo visto, a conversa com o vovô não tinha sido das melhores.

Ayla também foi para o quarto, tinha muita coisa para estudar. Quando sua mãe chegou, foi recebê-la e as duas foram preparar o jantar. No início da noite, todos se reuniram à mesa e a conversa fluiu naturalmente.

- Como foi à visita ao vovô, querido? - perguntou Fatma ao sobrinho.

- Boa, tia, conversamos um pouco. Não demorei muito lá, tenho muitas coisas para estudar! - respondeu sem dar muitos detalhes.

- Algum problema? - perguntou o tio Eren.

- Não, está tudo bem. Ele apenas queria conversar comigo, ontem não tivemos muito tempo.

Será que o avô quer falar com Murat sobre um pretendente para mim?, pensou Ayla, assustada. Precisava saber do que se tratava essa conversa.



Murat voltou para seu quarto após o jantar, tomou um banho e vestiu uma calça de algodão azul e uma regata branca. Sentou-se em sua cama e ficou olhando as luzes do lado asiático de Istambul. Triste, imaginava se sua situação poderia ter um final feliz. A solução seria tirar a prima de seu coração, o que não seria fácil já que convivia com ela; estavam juntos vinte e quatro horas por dia. Ouviu uma batida na porta e em seguida ela foi aberta, era o tormento de seu coração quem estava ali.

- Algum problema? - questionou ele.

- Me diga você. - devolveu a pergunta. - Estou com algum?

Murat pensou muito na resposta, antes de dizer:

- Não, até onde eu saiba.

Ela reparou na tristeza da resposta dele e aproximou-se.

- O que aconteceu, Murat? Qual o problema?

- Não tenho um problema. – suspirou.

- Claro que tem! Não me perguntou sobre o que andei fazendo com Derya a tarde toda, não me expulsou do seu quarto e não está me ameaçando. Com certeza, você não está em seu estado normal!

- A única coisa que me perturba, é você, Ayla. - respondeu com sinceridade, sem deixá-la perceber a ambiguidade que a questão trazia.

- É! você não está tão ruim quanto eu imaginava!

Com jeito melancólico, Murat voltou a contemplar a bela cidade em que vivia. Ele poderia disfarçar, mas ela sabia que a visita ao avô não tinha sido tão boa assim. Ele, contudo, jamais admitiria que tem um problema com o patriarca. Para ele, o avô sempre estava certo.

Ayla se sentou na cama dele e também admirou a beleza da cidade.

- Não quero que você pense que eu reparo em você ou que me preocupo com você, mas eu sei que não está tudo bem.

Murat a olhou.

- Nunca imaginei tal coisa de você. - respondeu.

Ela riu.

- Falando sério, - avisou. - se você precisar conversar com alguém, eu estou no quarto ao lado! - e passando as mãos pelos cabelos dele, levantou-se e saiu.

Queria muito poder conversar com ela, mas o assunto que tinha era proibido para eles. Ela era proibida para ele.

Precisava mudar essa situação, sempre fora um homem decidido. Seu pai sempre lhe ensinou a reagir com força às intempéries da vida. O melhor seria usar seu bom senso e, naquele momento, ele lhe dizia que o certo era tirar Ayla de seu coração. Talvez o avô tivesse razão; passavam muito tempo juntos, dedicava-se muito à Ayla. Ela monopolizava sua atenção. Isso precisava mudar.



Já passavam de uma hora da manhã e Murat não havia chegado em casa ainda. Pelo visto, ele não estava tão triste quanto parecia, pensou Ayla. Era injusto que ele pudesse sair para se divertir e ela não. Às vezes, perguntava-se por que nascera mulher em um país onde a maioria era muçulmana, em uma família tradicional.

- Argh! – disse, levantando as mãos para o céu e balançando-as em súplica.

Pelo menos, tinha a sorte de estudar e escolher a religião que quisesse já que sua família se dividia entre católicos e muçulmanos. Todos se davam muito bem. Religião era um assunto proibido de se discutir nas reuniões familiares, justamente para evitar qualquer discórdia. Também era proibido aos pais incentivarem as crianças a escolherem uma das duas religiões. O avô é quem fazia esse papel: ensinava-os um pouco de cada e quando eles se sentiam preparados, escolhiam uma. Ayla havia escolhido o catolicismo, frequentava as missas na igreja de Santo Antônio em Istambul. Murat a acompanhava de vez em quando, mas não gostava muito. Seu avô era Muçulmano, porém, era imparcial nas decisões de seus netos. Pelo menos nisso, pensou ela. Por fim, Ayla acabou caindo em um sono profundo e só acordou pela manhã com o som das gaivotas que já faziam a "festa" em sua janela.

Tomou um banho e organizou-se para mais um dia de aula. Encontrou Murat com um enorme copo de café nas mãos, sentado na varanda, com o café da amanhã à sua frente. Os olhos estavam vermelhos, pelo visto não dormira.

- Uau! A noite foi intensa! - disse ela.

- Não vou compartilhá-la com você. - disse Murat com mau-humor.

- Afff! Pensei que a diversão fosse para melhorar seu astral! Pelo visto, não contribuiu em nada.

Ele não respondeu e também não olhou para ela. Quando Ayla se sentou, ele levantou-se.

- Vamos!

- Mas eu nem tomei café da manhã ainda! - ela protestou.

Sem olhar para trás, ele disse:

- Pegue qualquer coisa e vá comendo no caminho.

Ayla obedeceu e pegou algumas torradas e um copo de iogurte. A cada dia, ele estava ficando mais rabugento. Precisava colocar seu plano em prática o mais rápido possível!



- Você tem certeza disso, Ayla? Eu nunca percebi nada! - falou Meli, sua colega de sala.

- Mas é claro, nós conversamos muito, moramos na mesma casa, lembra?! Ele sempre pergunta sobre você!

- E o que você acha que devo fazer? - perguntou a amiga.

- Ah, eu, no seu lugar, tentaria uma conversa, uma indireta ou um olhar para começar!

- Uma conversa seria algo muito direto, não ficaria bem. - falou a loira com uma cara de dúvida. - Você sabe os lugares que ele gosta de frequentar? Talvez se pudéssemos nos ver mais, ele tivesse coragem de falar comigo. Seria o ideal, eu não gosto de me expor muito, entende?

Meli era uma linda loira francesa, mas morava na Turquia desde pequena com a família. Era uma boa moça, dedicada nos estudos e muito educada. Sabia do seu interesse por Murat. Ele também já havia mostrado interesse em Meli há algum tempo, então o seu plano não tinha como dar errado: faria dos dois um casal. Até o nome deles combinavam! Assim, ele finalmente deixaria Ayla viver sossegada, teria mais com que se preocupar.

- Vamos fazer dessa forma: vou ver um lugar legal para irmos e te aviso, daí vocês terão a oportunidade de se conhecerem melhor! O que acha?

- Bem melhor! - respondeu a jovem, mostrando seu lindo sorriso. - Tenho que ir agora, a gente se fala depois!

Virando-se, Ayla deu de cara com Derya. Vendo o sorriso de vitória da prima, ela logo perguntou:

- O que você está aprontando, Ayla Erdoğan?

- Não estou "aprontando", estou lutando pela minha e pela sua liberdade! Portanto, apenas me agradeça e não me faça perguntas, pois não vou responder nada! – disse, já se encaminhando para o jardim da universidade.

- E desde quando você esconde algo de mim?

- Eu nunca escondi nada de você e também não estou escondendo agora, apenas não é o momento certo para falar sobre minha proeminente vitória! - disse com autoconfiança.

- Muito bem, só espero que essa vitória não lhe traga consequências desastrosas! - disse Derya em tom zombeteiro.

- Por Allah, Derya! Você é mesmo irmã de Murat, não? O que pode acontecer?

- Sei lá, talvez uma mudança de universidade ou de cidade ou até de país! - disse dramática, arrancando suspiros exasperados de Ayla. - O que você acha da África do Sul? Talvez a Polinésia fosse mais interessante, porém conhecendo o vovô, acho que dessa vez ele escolherá a Antártida para você!

- Eu ainda vou ver você me agradecendo, Derya, guarde minhas palavras!

- Vou começar a guardar é dinheiro para poder visitar você em algum desses países!

Ayla riu do drama da prima. Queria lhe contar, mas não podia. Na primeira ameaça, ela contaria tudo a Murat e não podia se arriscar daquela forma. Sabia que sua atitude não era a melhor, pois estava usando uma pessoa em benefício próprio, mas no fim tudo ficaria bem. Eles seriam felizes juntos, não tinha como dar errado. Meli era linda por fora e por dentro; Murat nem tanto, mas dava para o gasto.

Olhou para o primo, que estava do outro lado do jardim, sentado com os amigos embaixo de uma árvore. Os olhos dele eram uma mistura de verde com mel e pareciam mudar de cor com a incidência da luz; às vezes ficavam mais claros, às vezes mais escuros. Possuía um belo rosto, lábios cheios, barba por fazer, sobrancelhas grossas e um lindo sorriso, que era raro de se ver. Todos os dias, ele acordava cedo para correr. Beirando o Bósforo só de tênis e shorts, arrancava suspiros e assovios das mais atrevidas. Seu corpo era muito bonito, totalmente definido. Tinha um olhar intenso que faria qualquer mulher se desmontar. Era alto e sua pele, bronzeada. A voz era gostosa de se ouvir, mesmo quando estava com raiva. Murat era muito másculo. Sério, não gostava de brincadeiras com ela, mas Ayla sempre dava um jeitinho de o fazer mostrar seu raro bom-humor. Muitas das suas colegas de sala perguntavam sobre ele e o mesmo acontecia com as amigas de Derya, sempre interessadas no tirano. Nos corredores, via muitas jovens lhe lançar olhares de admiração e interesse, mas ele não lhes dava a mínima atenção. Inteligente, suas notas eram as melhores da turma; seria um grande profissional.

O que tinha de bonito, tinha de chato. Não perdia a chance de aborrecê-la, nunca concordava com ela. Como um soldadinho de chumbo, adorava seguir as ordens do general Mustafá. Ayla odiava isso. Mas até que não era tão malvado. Ela sabia que ele tinha um lado afetuoso; geralmente mostrava isso quando estavam à sós, mas Ayla sempre tomava a iniciativa para depois ele corresponder. Murat sempre fora muito exigido e pressionado pela família, talvez isso tenha o transformado no "casca grossa" que é hoje.

Murat viu a prima o olhar fixamente. Ele fez um gesto perguntando-lhe por que ela estava olhando-o. Em resposta, Ayla enviou-lhe um beijo. Ele balançou a cabeça em desaprovação e desviou o olhar, mas sorriu mesmo assim e olhou-a outra vez. O olhar, o sorriso e até o mau-humor dele tinham algo de diferente, sensual, concluiu ela.

- Você adora provocá-lo, não é? - disse Derya, observando a cena.

- Minha maior diversão! - respondeu.

É, ela se enganara: Murat não dava apenas para o gasto, ele era muito bonito. Seria um bom partido para qualquer mulher. Era muito bonito e sensual... Exatamente isso. Meli ficaria feliz em tê-lo ao lado!

- Nossa, Murat, Ayla está cada dia mais linda, bem que você poderia facilitar a vida do seu amigo e me deixar pelo menos conversar com ela. - disse Deniz, uns dos seus colegas de turma.

- Você não aguentaria cinco minutos ao lado dela, Ayla não tem juízo! - retrucou.

- A beleza dela compensa, meu amigo! – disse, admirando-a ao longe. - E não foi isso que ouvi falar. Ela é uma das melhores alunas da engenharia!

Murat e Ozan, que também estava no grupo de rapazes, entreolharam-se. Ele sabia do interesse do colega por Ayla desde o primeiro dia em que ela pôs os pés na universidade. Ele não perdia a oportunidade de saber mais sobre ela. Murat já tinha avisado aos amigos que mantivessem distância da prima. Até agora não tinha tido problema com nenhum.

- Você vai sair hoje à noite, primo? Tem um bar na Istiklal que estou louco para conhecer, dizem que é bem movimentado por lá!

- Não sei, ainda estou cansado de ontem. – riu, lembrando-se da noite que teve.

- Ah, com certeza você está! De onde ela era mesmo? Rússia?

- Alemanha! - respondeu

- Aonde vocês foram? - perguntou Deniz, indiscreto.

- É melhor você não fazer esse tipo de pergunta! - disse Ozan, rindo.

- Em um lugar proibido para flores delicadas como você! - respondeu Murat, passando a mão no rosto de Deniz, que foi motivo de chacota para os outros colegas.

Levantando-se, ele tirou a jaqueta e disse com bom-humor:

- Venha, Murat, vamos ver quem é a florzinha!

- Não. Sou um bom homem, não vou humilhar você na frente de Ayla!

Irritado, Deniz provocou:

- Você está é com medo. E eu sei que Ayla não me acha uma florzinha!

- É? - Murat apertou o maxilar, tenso. - E como você sabe disso?

Deniz lançou um olhar debochado para ele, dando de ombros. Pegou a jaqueta para sair, mas foi impedido por Murat, que já estava em pé, segurando seu braço com força.

- O que você está insinuando? - perguntou Murat com olhar ameaçador.

Ozan já estava ao lado do primo e a cena começava a atrair a atenção de alguns outros estudantes.

- Eu não devo explicações a você! - tentou se soltar, mas Murat era mais forte e não permitiu. - Me largue! - disse Deniz em tom ameaçador.

- Não até você ser homem e concluir a sua provocação!

- Calma, Murat. - Ozan pediu.

Os outros amigos também já estavam em pé para intervir e pediam que os dois se acalmassem.

- Ah! - disse rindo. - Você não acha que sou homem? Então, pergunte a Ayla, ela sabe quão homem eu posso ser!

- O que você fez, maldito? Diga de uma vez por todas! - esbravejou Murat.

- Deniz, cale-se! - pediu um dos rapazes que foi seguido por outros que tentavam acalmar os ânimos dos dois.

- Não vou lhe dar detalhes, mas pelo visto não ficamos muito atrás de você e a garota alemã. - disse o rapaz com um sorriso no rosto após ver a incredulidade nos olhos de Murat. - Tenho que lhe dizer, Murat, - fez uma pausa. - Ayla é deliciosa!

Deniz não pôde prever o que viria a seguir, senão, teria evitado a provocação desde o começo. Murat, com toda raiva que sentia, lhe deu um soco no queixo, que fez rodopiar várias vezes, parando longe no chão. Ozan o segurou, pois ele já se encaminhava para bater outra vez no colega de turma. Estava cego de ódio. Alguns dos amigos foram em socorro do rapaz, enquanto outros ficavam no meio tentando impedir a passagem de Murat.

Ayla e Derya viram tudo de onde estavam e ficaram estarrecidas com a atitude do primo. Sabiam que Murat era estressado, mas nunca o viram agredir ninguém. Com certeza Deniz deve ter feito algo muito sério.

- Ayla, acho melhor sairmos daqui agora! - chamou Derya, lembrando-se do caso da prima com o colega no primeiro semestre do ano anterior, quando ambas entraram na universidade. Desconfiava que Murat já estava sabendo sobre tudo.

- Não, eu não vou fugir, Derya, isso não é da conta do Murat. É minha vida pessoal e ele não tem nada a ver com isso!

Uma multidão já havia se formado ao redor da briga. Seguranças e professores tentavam entender o que estava acontecendo e dispersavam a multidão. Todos foram levados à coordenação, exceto Deniz, que foi levado à enfermaria.

Murat e Deniz foram punidos com suspensões das aulas durante uma semana e quando voltassem, teriam que prestar serviços para a universidade. Ozan se encarregou de deixar Derya e Ayla em casa depois das aulas e Murat voltou sozinho para Ortaköy.

Derya esperava Ayla, Ozan e Murat do lado de fora da universidade. Logo os dois apareceram e o primo avisou que ele é quem as levaria para casa, pois Murat havia sido suspenso. Eles seguiram primeiro para a casa de Derya em Sultanahmet.

- Murat perdeu totalmente a razão agredindo o cara daquela forma! - disse Ayla.

- Eu nunca o vi bravo daquele jeito. - observou Derya. - Ozan, qual foi o motivo da briga entre Murat e Deniz? – perguntou, olhando para Ayla que, apesar da coragem, estava tensa.

- Qual o assunto que faz Murat perder a cabeça? - incitou Ozan, mas como não ouviu resposta de nenhuma das duas, respondeu: - Ayla!

- Mas o que foi que eu fiz dessa vez? – disse, dramática.

- Você deu uns amassos em um idiota. - respondeu Derya.

- Exato! - concordou Ozan. - Ele não falou em detalhes, mas deu a entender que foram mais que uns amassos. Bem mais!

Ayla engoliu em seco. Agora sim estava em apuros. Murat jamais acreditaria nela. Não podia culpá-lo, já aprontara tanto que, às vezes, até ela não acreditava em si mesma.

- Isso é mentira! Se eu soubesse que ele andava falando isso, eu mesma teria batido nele! – disse, revoltada.

- Difícil vai ser Murat acreditar! - falou Ozan. - Quando ele bota algo na cabeça, você sabe como é; ninguém tira!

- Derya, agora seria uma boa hora para me dar aquele dinheiro que você disse que juntaria para ir me visitar na Polinésia. Preciso sair de Istambul o mais rápido possível! - brincou.

- Mas você disse que não fugiria! - observou a prima.

- Isso foi antes de saber da gravidade do assunto. - fez uma pausa e prosseguiu. - Ele vai arrancar meu fígado, Derya!

- Se fizer isso, você terá sorte. Pior é se ele contar para o vovô! - falou.

- Allahım!

- Não, Murat jamais contaria ao vovô. Lembra do que eu falei? Ele não entrega a Ayla! Mas pode se preparar por que a briga vai ser feia! - falou o primo.

- Ozan, você é homem! Fale com Murat, talvez ele te escute! - pediu Derya.

- É mais fácil conversar com um touro. - disse ele. - Vocês sabem que isso só vai adiar o inevitável!

- Mas você vai me deixar sozinha com ele? E se ele me matar ou se me jogar no Bósforo? Eu não sei nadar, Ozan, vou me afogar! - falou Ayla, dramática.

Ozan riu.

- Deixa de drama, Ayla, ele jamais faria isso. Nessas alturas, a irritação dele já deve ter diminuído! Vai estar mais tranquilo quando você chegar!

- Você realmente não conhece o Murat! - disse ela.

Deixaram Derya em casa e seguiram para Ortaköy. Não demoraram muito para chegar e Ozan estacionou. Deu um beijo na prima que lhe disse:

- Quero que você saiba que sempre foi um primo maravilhoso. Infelizmente, não estarei aqui para vê-lo se casar e ter filhos, mas estarei no céu orando por você.

Ozan riu com gosto.

- Amanhã eu passo cedo para lhe buscar, esteja pronta! - respondeu.

Ela desceu e entrou. A casa estava no mais profundo silêncio. Não viu vestígios do Tirano. Subiu as escadas da forma mais silenciosa que pôde, chegou ao andar e observou que a porta do quarto dele estava entreaberta. Entrou no seu, fechando a porta em suas costas. Sabia que o confronto era inevitável, moravam na mesma casa, fugir era impossível, mas o evitaria tanto quanto pudesse.





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