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Amor em Istambul - Capítulo 3

quinta-feira, 2 de junho de 2016


Capítulo 3


No dia seguinte, Murat foi à casa do avô como havia prometido. deixou a irmã e a prima em Sultanahmet e seguiu para Üsküdar.

Chegando lá, encontrou o avô à sua espera na varanda. Cumprimentou-o levando a mão do patriarca à sua fronte.

- Sente-se, Murat. - convidou o Mustafá.

Ele se sentou e ouviu-o dizer:

Amor em Istambul - Capítulo 2



Capítulo 2



Murat tinha razão, estava mesmo sendo um longo dia. No momento do intervalo entre as aulas, Derya e Ayla foram até a cantina tomar um chá-preto. Murat se aproximou com mais dois amigos e colocou o celular de Derya em cima da mesa.



- Ah! Meu celular, que saudades! - disse Derya.


- Por que você estava com o celular dela? - perguntou Ayla, confusa.


- Peguei ontem para evitar que ela contasse a você que estávamos de partida.


- Nossa! Não sabia que você poderia ir tão baixo, Murat. - falou, indignada.


- Mais baixo do que você, falsificando um atestado? Acho que não.


Dizendo isso, afastou-se com os amigos e Derya falou:

Amor em Istambul - Capítulo 1



Capítulo 1



- Günaydın. - disse Ayla.


- Günaydın - respondeu Murat, seu primo. - Sente-se, vamos tomar café da manhã juntos nem que seja por uma única vez ao ano.


- Ah! Por favor, deixe de drama! - pediu Ayla, sentando-se e admirando a bela paisagem.


Istambul, o berço da civilização. Com seus quase dois mil anos de história, encantava até os mais experientes viajantes.


Ayla nascera em Istambul. A vida toda vira aquela paisagem pela manhã e mesmo assim não se cansava de tanta beleza.


Morava em um bairro chamado Ortaköy, muito frequentado principalmente à noite por possuir cafés, bares e restaurantes, tudo em frente ao Bósforo, estreito que liga o Mar Negro ao Mar de Mármara e que “e” marca o limite dos continentes asiático e europeu.


- Terminou? - perguntou Murat, que a observava.


- Sim, vou pegar minha bolsa.


- Estou lhe esperando no térreo.


Ayla morava em uma casa estilo otomano com três andares, tudo muito bem dividido. No térreo, a garagem e um terraço. No primeiro andar, a sala de estar, a lavanderia e a cozinha de inverno. No segundo andar, os quartos. No terceiro andar, a cozinha de verão, uma suíte, um escritório, uma pequena sala e uma linda varanda, onde faziam suas principais refeições.


Encontrou o primo a aguardando na garagem. Ayla cursava engenharia e ele, medicina na Universidade de Istambul. Murat morava com os pais em Sultanahmet, um dos bairros mais tradicionais de Istambul, porém só voltava para casa nos fins de semana. Durante os outros dias, ficava com seus tios, já que era o responsável por Ayla e outros dois, Derya, irmã dele, e Ozan, seu primo, que morava com o avô e a mãe no lado asiático de Istambul.


A família de Ayla tinha esse costume. Na juventude, o homem mais velho cuidava dos mais novos; esse era o "cargo" de Murat. Cuidar não é bem a palavra certa. Murat a controlava, obrigava-a a fazer atividades que ela não queria, e a seguir regras e horários. Tudo isso com o aval de seus pais e, claro, avô. O patriarca era extremamente rígido e o que ele dizia nunca era contestado.


Ayla não era mais criança, tinha vinte anos e sabia se virar sozinha. Nunca gostou de ter Murat controlando seus passos, mas tinha sido assim desde que ele completara a idade necessária para se tornar tutor. Ayla tinha nove anos quando recebera a notícia que, além de seus pais, ela também devia satisfação e obediência a Murat, então com quatorze anos. Hoje com vinte e quatro, ele pouco lembrava o garoto alegre e sorridente que era na infância.


Murat fora adquirindo responsabilidades com o tempo. Muito cobrado por seu avô na educação dela e dos outros, ele tinha se tornado implacável no cumprimento das regras. Ela já havia perdido as contas de quantas vezes teve discussões por conta disso. Ela adorava quebrar regras e ele adorava segui-las.


Chegando à universidade, Ayla seguiu para seu curso e encontrou sua prima no corredor. Derya cursava pedagogia e era o orgulho do seu avô já que tem tudo o que uma mulher deve ter na opinião dele. A prima era meiga, calma, estudiosa, obediente e interessava-se por assuntos femininos, como culinária e bordado; um dia dará uma ótima esposa. Diferente dela, Derya não precisa de assistência vinte e quatro horas já que segue tudo que Murat dita sem questionar.


- Olá, moça bonita - disse Derya, dando um grande abraço na prima.


- Olá, sexy - retribuiu Ayla.


- Se Murat ouve você falando assim... - alertou-a.


- Quem liga para o chato do seu irmão? - deu de ombros - Trouxe o que pedi?


- Claro! Se não trouxesse, você me mataria! – disse, dramática.


- Ainda bem que você sabe. Daqui a quinze minutos. nós encontramos lá fora, tem muita gente aqui e não quero testemunhas.


- Tem certeza que você quer fazer isso, Ayla?


- Toda certeza desse planeta.


Seguiram para suas respectivas salas e, após a aula, encontraram-se no jardim da universidade, como tinham combinado. Vários estudantes se espalhavam pelo local.


- Venha! - chamou Ayla, saindo de perto de um grupinho que conversava animadamente.


- Aqui está! - disse Derya, entregando um papel nas mãos de Ayla - E nunca mais me peça nada. Tive que comprar um óleo perfumado caríssimo para que a Gulsen pedisse ao irmão que assinasse isso e estou me sentindo uma criminosa. Não quero nem imaginar se Murat descobrir, ele vai arrancar nossas cabeças e jogar no fundo do Bósforo.


- Deixe de drama, Derya, ele não vai saber! - falou Ayla toda feliz, olhando para o papel em suas mãos.


Tinha pedido a Derya que conseguisse um atestado de consulta médica para entregar ao professor e ser liberada da aula. Iria para Avenida İstiklal, o centro de compras e lazer mais famoso de Istambul, e iria sozinha, sem as rédeas de Murat.


Que maravilha, pensou ela.


Derya e Ayla não costumavam sair sozinhas, mais uma regra da sua conservadora família. Murat sempre estava ao lado delas ou ficava de longe, observando-as. Às vezes, ela conseguia escapar. Na calada da noite, já se encontrara com suas amigas para ir a uma boate ou a praça apenas para conversar. Já fora pega chegando em casa pela manhã e teve que contar ela mesma aos pais, que fizeram um discurso de como era perigoso uma jovem sair sozinha à noite, mas geralmente não eram muito severos nem tão conservadores quanto seu avô.


Ela sabia que não era dócil, às vezes, perguntava-se de quem havia herdado todo esse gênio. Seu avô sempre dizia que ela parecia com uma irmã dele que já havia falecido, geniosa e caprichosa. Ele quem tinha escolhido seu nome, assim como os dos outros netos. Seu avô achava seus pais muito tranquilos, então ele lhe dera um nome forte para balancear a família; os turcos tinham esse tipo de superstição.


O avô dizia que se pudesse, voltaria no tempo para escolher outro nome para ela, pois esse não teve o efeito esperado. Ayla é um nome hebraico, que quer dizer carvalho e, assim como a árvore, ela era difícil de "derrubar". Quanto mais tentavam controlá-la, mais desafiadora se tornava. Sabia que seu avô Mustafá a amava e preocupava-se muito com ela, mas sempre agia com mais firmeza quando as decisões se tratavam da vida de Ayla. Ela sabia convencer aos pais e, algumas vezes, ao seu primo, mas o seu avô não facilitava.


Ayla entrou na sala de aula e falou com o professor, mostrando o documento assinado de que ela teria consulta médica naquele dia, então ele lhe deu uma liberação por escrito, que ela entregou na portaria e saiu se sentindo muito feliz. Ninguém iria estragar aquele dia.






Murat estava concentrado em sua atividade de biologia quando seu amigo de sala se sentou a seu lado, perguntando-lhe:


- Você e Ayla estão mal outra vez?


Sem desviar a atenção do que fazia, ele respondeu:


- Qual o dia que não estamos? – curioso, olhou para o amigo - Mas por que a pergunta?


- Por que ela acabou de passar pela portaria sozinha!


Murat fez cara de surpreso. Não acreditava que ela tinha aprontado mais uma. Pediu licença ao professor e foi à sala de Ayla. Olhou pelo pequeno vidro da porta e constatou que ela não estava lá. Pegou o celular e ligou para ela, que não atendeu. Lembrou-se de Derya. Se alguém sabia onde ela poderia estar, era sua irmã. Subiu as escadas já discando o número. Ela atendeu, falando baixinho:


- Irmãozinho, eu estou na aula, não posso falar!


- Saia! Eu já estou no corredor.


Derya levantou-se já sabendo que vinha bomba por aí. Encontrou o irmão furioso:


- Onde ela está? - perguntou sério.


- Ela quem, Murat?


- Ayla! - disparou - Não se faça de boba, Derya, ela não está no campus, saiu e eu sei que você sabe para onde ela foi!


- Ela não está no campus? - fez cara de surpresa - Quem te disse essa bobagem? Claro que ela está! Deve ter ido ao toalete. Por que você não liga para ela e pergunta?


- Derya! - disse Murat, aumentando o tom da voz e fazendo-a perceber que ele não iria descansar enquanto não soubesse onde Ayla estava. Droga, sabia que aquilo não daria certo, mas não poderia entregar a prima, senão seria uma mulher morta, porém, se não entregasse, também seria morta por Murat. Que situação, pensou, nervosa.


Murat percebeu que Derya estava hesitante, com certeza não queria entregar a prima e melhor amiga, então ele decidiu agir com sabedoria:


- Você não vai me dizer para onde ela foi?


- Eu já disse que não sei, Murat, e você está atrapalhando minha aula!


- Certo, não vou mais tomar seu tempo. Preciso ligar para o


o nosso pai papai, ele vai saber como encontrá-la.


Derya gelou. Se seu pai soubesse que Ayla tinha saído sozinha e com ajuda dela, seria o fim para as duas.


- Espere! - gritou.


Murat virou e ela se aproximou:


- Você não precisa fazer isso. Ela vai voltar logo, só foi resolver um problema. – disse, pronta para enfrentar a fúria do irmão sobre ela também.


Ele a olhou desconfiado e chateado com as "traições" frequentes da irmã. Tirou o celular de suas mãos.


- Ela terá um problema muito maior quando voltar! – disse, virando-se de costas e falando - E você também não vai escapar dessa, Derya - descendo as escadas, ele se foi.


Já de volta à aula, ele não conseguiu mais se concentrar. Estava furioso com Ayla. Não entendia seu comportamento pouco adequado. As outras jovens eram tão diferentes dela, sempre meigas, tranquilas, obedeciam aos pais, interessavam-se por assuntos femininos como costura, cozinha, artesanato... Mas ela era muito diferente. Gostava de festas, odiava crochê ou qualquer trabalho artesanal, não tinha medo de sair sozinha, era teimosa, sempre tinha uma opinião e uma resposta.


Ayla não perdia a chance de desafiá-lo e não gostava de receber uma negativa em resposta. Certa vez, eles estavam em uma comemoração de família quando, apesar das restrições, Ayla saiu do local. Murat procurou por ela em todos os lugares sem sucesso, até que um amigo lhe disse que ela estava em outra festa. Tinha saído de lá com alguns amigos do colegial. Eles estavam passando e convidaram-na. Ela, então, seguiu com eles.


Murat, sem saber o que fazer, contou ao pai e ao avô o que ela fizera. Eles foram buscá-la, deram-lhe uma bronca das grandes, compararam ela às outras moças, dizendo-lhe que ela sempre era inadequada aos padrões e, junto dos pais dela, decidiram trocá-la de escola para que ela não tivesse mais contato com esses amigos que julgavam ser más influências para a já tão rebelde garota.


Na época, Ayla ficara desolada e chorara muito. Para uma adolescente de dezesseis anos, aquilo era um duro golpe; a atitude da família a ferira muito. Cortaram sua comunicação com Derya e com seus outros amigos. No começo, ela se fez de forte, mas passando uns dias, começou a reclamar da nova escola e da falta que sentia da prima, mas sempre era repreendida. Ouvia tudo calada, mas se trancava no quarto e chorava muito.



Murat sempre ouvia o choro de Ayla já que seu quarto era ao lado do dela. Sentira-se culpado. Desde então, ele decidira que só levaria um problema com ela ao avô em último caso, quando já não tivesse esperanças de lidar com a situação. Muitos problemas surgiram desde os dezesseis anos de Ayla; cada dia ela parecia estar mais independente, ou, pelo menos, tentava ser. Ele não achava aquilo ruim: uma mulher tinha que saber se cuidar, mas regras são regras e não questionava as decisões de seu avô, que sabia bem o que estava fazendo. Ele tinha muito mais experiência do que eles, sabia bem mais sobre a vida.






Ayla se divertira muito. Entrara em várias lojas, comprara tudo o que queria, ficara encantada com as promoções. Tomou um café olhando as pessoas que andavam apressadas. Por onde passara, recebera olhares masculinos. Sem Murat, as coisas eram diferentes, muito diferentes - riu do seu pensamento, chamando mais ainda a atenção de um rapaz que estava sentado em outra mesa, observando-lhe.


Ele pediu que o garçom lhe entregasse um guardanapo onde havia escrito: "Mashallah! Sen çok güzelsin" e o número do telefone para que ela ligasse. Bem, infelizmente já estava na hora de voltar à realidade, voltar para o cárcere.


Ela ainda não tinha pensado no que fazer com aquele monte de sacolas. Não poderia entrar na sala de aula e muito menos encontrar com Murat. Planejou tudo menos a volta; devia ser por que ela realmente não acreditara que aquilo daria certo, que seu tutor não fosse descobrir o que ela tinha feito.


Passou todos os minutos de sua restrita liberdade esperando ele aparecer e arrastar-lhe de volta para casa, pois era isso que sempre acontecia quando ela "aprontava". Ela não era boa de fuga e sua cúmplice não era boa com segredos, então...


Decidiu chamar um táxi e ir para casa. Seus pais estavam trabalhando, só chegavam em casa à noite. Ayla colocou tudo no armário do seu quarto e olhou o relógio. Ela tinha uma hora para voltar à Universidade e fazer o belo desfecho do seu plano. Chegou faltando vinte minutos para que todos saíssem. Entrou na sala de aula e foi para o seu lugar. Três horas de liberdade não tinham sido suficientes, mas já era alguma coisa.


Quando saiu, foi para o mesmo lugar de sempre esperar por Murat e os primos, mas eles não apareceram. Ayla ligou, mas nenhum deles atendeu. Foi às salas e tudo estava vazio. Ficou preocupada. Será que tinha acontecido algo em sua família e eles não puderam esperar por ela? Pensou em seu avô já que era a pessoa mais idosa da família. Decidiu, então, pegar outro táxi para voltar. Olhou na bolsa e viu que tinha deixado a carteira em casa junto das sacolas. Entrou em pânico.


- Não acredito! Que burra eu sou.


Como não tinha muito que fazer, foi andando para casa. Era longe, mas era o jeito. Depois de uma hora e meia caminhando, ela finalmente chegou em casa, exausta e pronta para morrer. Encontrou Murat no primeiro andar com seu almoço pronto e um enorme copo de água, que lhe entregou. Ela bebeu tudo. Ele puxou a cadeira para ela se sentar e ordenou:


- Coma!


Pela cara e pelo tom de voz, ele já estava sabendo de tudo. Era melhor não contrariar, pensou ela.


Ayla terminou sua refeição sob a vigilância de Murat, que não tirava os olhos dela. Afastou o prato e encarou-o: não fugiria da briga.


- Onde você estava? - perguntou ele.


- Fui resolver um assunto. - respondeu indiferente.


- Que assunto? - insistiu.


- Você é muito curioso. - provocou.


- Você não tem assuntos a tratar com ninguém, Ayla, seu assunto é comigo, com sua família, por isso, não minta para mim nem se faça de desentendida, porque eu não vou tolerar isso. - disse alto e já se levantando.


Ayla também se levantou e retrucou:


- E o que é que você vai fazer? Contar ao meu pai? Para tio Gökse? Não, melhor, conte logo para o vovô, assim ele me troca de universidade! Só que dessa vez, eu tenho uma surpresa para vocês: ninguém me incentivou, eu fiz tudo por conta própria, não vão poder acusar ninguém. – disse, debochada.


- Eu não entendo você. Não entendo esse seu prazer em desobedecer, em criar o caos, em ser do contra. Onde você acha que isso vai te levar?


- Eu não espero que você entenda. Você age como um soldadinho, nunca questiona nada que te mandam fazer. Murat, nossos pais e avô não são os donos da verdade, o mundo mudou, as coisas mudaram e já passou da hora dessa família mudar também.


- É, o mundo mudou, por isso está essa porcaria. - respirando fundo, ele continuou. - Não fuja do assunto, me diga onde você esteve, sem mentiras. – aproximou-se de Ayla. Com um olhar ameaçador, encarou-a, esperando por uma resposta.


- Fui fazer compras, Murat - ela respondeu, encarando-o sem medo.


- Hum! Com quem você foi? - disse sem desviar os olhos.


- Sozinha.


- Acho que fiz a pergunta errada, me deixe formular melhor. - disse com a voz muito tensa. - Com quem você foi se encontrar nesse passeio?


- Com ninguém.


- Mentira! - esbravejou, afastando-se dela.


Ayla ficou desconcertada, sem entender, pois ele falava com muita convicção.


- Murat, eu não estou mentindo. Fui sozinha e permaneci sozinha.


- Ah, jura? Então, de quem é esse número? – perguntou, mostrando o papel que o rapaz na cafeteria tinha lhe entregado.


- Eu fui tomar um café e um rapaz me entregou! O que você queria que eu fizesse? Fosse à mesa dele devolver? Ou que eu dissesse que tinha um primo louco em casa que surtaria se visse isso?


- Ayla... - falou Murat em advertência: ela já estava passando dos limites. Murat respirou fundo e continuou: - Você sabe o que aconteceria se nossos pais soubessem o que você fez hoje?


Ela já estava cansada disso:


- Vá contar, Murat, eu não me importo. Quero mesmo que eles descubram e que percebam de uma vez por todas que ninguém vai me controlar. – disse, aproximando-se dele. - Eu não nasci para ser a garotinha do papai e eles já deveriam ter entendido. E você já deveria ter desistido de tentar me fazer ser quem eu não sou.


- Eu me preocupo com você. – disse, aumentando o tom de voz - Sabe quantas coisas passaram pela minha cabeça enquanto você estava se divertindo? Você poderia ser assaltada ou sequestrada.


- Acho que você está confundindo Istambul com outro lugar.


- Não, Ayla, você é quem não conhece o mundo lá fora. Você vive essa fantasia de ser independente, ser livre, mas liberdade tem limites. Você não consegue seguir as regras da nossa família, como vai seguir as regras da sociedade? Não se vive sozinho. Você sempre vai depender de alguém.


- Acredito que você me deixou voltar a pé para me castigar? - desconversou.


- Você já tinha andado quatro horas seguidas, mais uma não faria tanta diferença. - disse com um meio sorriso - Espero que tenha gostado da paisagem de lá até aqui.


- Você não sabe o quanto eu te odeio, Murat - disse Ayla, estreitando os olhos.


- Nesse momento, eu estou imaginando o quanto. - disse ainda sorrindo.


Ayla tentou pegar o papel das mãos dele, mas Murat foi mais rápido. Do alto, picou todo o guardanapo.


- Prêmio de consolação, Ayla? Hoje não! - disse saindo.






Algumas horas depois, todos jantaram juntos. Murat não disse nada a seus pais, ao contrário: passara todo momento calado. Depois de ajudar a mãe a organizar a cozinha, Ayla foi para seu quarto. Estava bufando de ódio de Murat. Não conhecia ninguém mais inconveniente que ele. O rapaz que lhe dera o número era tão lindo, uma pena ter perdido o telefone dele. Murat era sempre estúpido, ainda bem que nada tinha dito ao seu pai sobre as comprar de hoje. Ayla levantou-se da cama e foi pegar as sacolas dentro do armário. Jogou tudo em cima da cama e foi provar as novas peças. Tinha comprado uma camisa para Murat, verde da cor dos olhos dele, ficaria lindo. Ele não merecia, mas Ayla sempre acabava comprando algo para ele. Foi até o quarto do primo e bateu à porta, ele abriu só até a metade:


- Diga!


Ayla empurrou a porta e entrou.


- Nossa, que mau humor!


- Só com você. O que quer?


- Eu comprei isso aqui para você. – disse, entregando-lhe a sacola - Para você não sair por aí dizendo que eu não sou uma boa prima, que só lhe dou trabalho e preocupações e trá, lá, lá, lá.


Murat abriu e viu a camisa, muito bonita, verde, da cor que ele gostava.


- Você está tentando me comprar? - disse ele, levantando uma sobrancelha.


- Eu não preciso comprar você. As pessoas compram às outras porque têm medo, e eu não tenho medo de nada - dizendo isso, foi se encaminhado à porta para sair. - Ah, não precisa me agradecer!


Murat respirou fundo. Ayla o tirava do sério. S não fosse tão cabeça dura, seria muito divertida. Ela tinha muitos amigos, vivia recebendo ligações e convites para sair; claro, todos eram analisados por ele antes da permissão de seu tio para que ela pudesse participar. Gostava de conversar com ela às vezes, quando estava menos ácida. Deitavam no quarto dele e ficavam olhando o Bósforo pela janela, jogando conversa fora até que acabavam adormecendo.


Hoje ele tinha pensado em um filme para eles assistirem, mas depois da discussão que tiveram, achou melhor desistir. Porém, agora, depois do presente, pensou que não faria mal um filminho. Foi preparar a pipoca para convidá-la.


Murat abriu a porta do quarto de Ayla e encontrou-a em frente ao computador.


- Vamos assistir a um filme? – disse, mostrando a tigela de pipoca a ela.


- Com certeza! - disse ela animada, seguindo-o.


Deitaram na cama de Murat, apagaram a luz e o filme começou. Era um thriller aterrorizante sobre um grupo de amigos que foi parar em uma ilha deserta e, de repente, um deles apareceu morto, e o barco em que eles vieram tinha sumido. Agora estavam presos ali com um assassino.


O filme passou e, vencido pelo cansaço, Murat dormiu. Ayla percebeu e chamou-o:


- Acorda, Murat, você vai perder a melhor parte!


- Amanhã você me conta. - disse já bocejando


Ayla continuou vidrada no filme até que também foi vencida por ele e dormiu.


Murat acordou de madrugada com o barulho do televisor ligado. Pegou o controle, desligando-o. Olhou para o lado e viu que Ayla dormia a seu lado com a cabeça encostada em seu ombro. Ia acordá-la para que fosse para seu quarto, mas, antes, decidiu aproveitar aqueles poucos momentos que tinha com Ayla tão quieta. Observou suas expressões; ela parecia um anjo.


Quando Murat teve que morar com os tios, Ayla, com seus treze anos, estava entrando na adolescência. Muita coisa mudara desde então: sua rebeldia piorou, assim como suas ideias de independência. Ela crescera, adquirira um corpo escultural, cintura fina, quadris largos, longas pernas e pele bronzeada. Seus cabelos estavam sempre bem tratados, longos e negros, tinham um cheiro agradável que sempre ficava em seus travesseiros.


Murat se lembrou da irritação que sentiu ao ver o número de telefone dentro da bolsa de Ayla. Não a queria com ninguém, ela não tinha permissão para namorar, principalmente um desconhecido. Voltou a admirar a beleza dela. Era uma provação. Em outras famílias turcas, o casamento entre primos era comum, mas na sua era proibido. Infelizmente, pois há algum tempo vinha sentindo algo muito específico por Ayla, mas aquilo precisava acabar. Seu avô jamais permitiria algo entre eles.


Ayla gemeu quando que uma brisa fria entrou pela janela. Murat a cobriu com uma manta que estava sobre sua cama.

– Murat? – falou ela, sonolenta.

– Estou aqui. – respondeu – É melhor você ir para seu quarto!

– Não, eu quero ficar, me deixa ficar? – pediu e ele concordou. Abriu os braços e ela se aconchegou a ele. Murat depositou um beijo em sua fronte. Ayla fechou os olhos e suspirou. – Murat, nós sempre brigamos, mas eu te amo!

O coração dele se apertou, pois sabia que o amor dela não era como o seu, não existia paixão por ele; o amor que ela sentia era diferente.

– Eu sei! – disse apenas. – Durma! Amanhã temos mais um longo dia!

E ela adormeceu novamente seguida por ele.





Amor na Capadócia - Capítulo 3

sábado, 14 de maio de 2016

Derya chegou a Istambul antes do meio dia. Sua linda cidade continuava esplendorosa, não podia negar que sentiu falta daquela agitação.
Desceu do táxi em frente a casa do avô que estava, como de costume, em sua cadeira na varanda. Ele a olhou sorridente, não demonstrando nenhuma surpresa por ela está ali.
Derya subiu os pequenos degraus e parou a frente dele.
— Deixe-me adivinha! — pediu ela — Tio Mehmet o avisou que eu viria.
Mustafá se levantou.
— Não!
— Então porque não vejo surpresa em seu olhar?
— Por que estou esperando por esse momento a quase dois anos. Apesar de ser um longo período eu sempre soube que ele aconteceria.
— Não voltei para ficar vovô!
— Não pode voltar de onde nunca saiu, Derya.
Derya sorriu. Mustafá adiantou-se e ela segurou-lhe a mão e levou ao rosto pedindo a benção a aquele que era a base de sua família.
— Que Deus a abençoe, filha!
Derya abraçou o avô e ele a ela.
— Senti muito a sua falta, vovô!
— E eu a sua, minha princesa — disse enquanto a abraçava forte — Fico feliz que o Capitão Teo conseguiu chegar até você.
Derya se afastou e olhou para o avô um tanto surpresa.
— Eu sabia que dessa vez ele conseguiria — disse sorrindo — Vamos entrar, temos muito para conversar.
Chegaram ao escritório do avô e Derya olhava ao redor lembrando-se dos momentos maravilhosos que viveu naquele lugar.
— Ozan está?
— Não, apenas sua tia. Ozan, Meli e Aslan foram visitar os pais de Meli em Paris.
— Que pena, queria muito conhecer o próximo patriarca dessa família — disse sorrindo e pegando um porta retrato do garotinho loiro que estava em cima da mesa do avô.
— Ele é um ótimo garoto, um pouco levado, mas qual criança não é?
Derya sorriu.
— Verdade! — concordou — E Maria? A vi na foto que Murat me enviou, é tão linda. Também tem cara de levada.
O avô sorriu.
— A luz dessa família, minha Maria! — falou orgulhoso — É a garota mais bonita que eu já vi. Tem um pouco de Murat, um pouco de Ayla e o gênio dos dois.
— Deus! — exclamou assustada — Adoraria conhecê-la.
— Tem cinco meses apenas, mas já conseguimos ver o quão esperta é. Só espero que não dê tanto trabalho como os pais me deram.
— Sinceramente vovô, acho que ter trabalho com os netos é o seu carma. Não dá para fugir.
— Mas mereço uma folga, não acha? Vocês já me causaram emoções demais para uma vida — disse sentando-se.
Derya sentou-se a frente dele, olharam-se longamente em silêncio.
— Está magoada?
— Não sei o que estou sentindo na verdade. Vim aqui na esperança do senhor me negar tudo que ouvi de Teo.
— Infelizmente isso não será possível querida, pois o Capitão Karadeniz só disse a verdade. Ele não teve culpa de nada, seu pai arquitetou tudo para afastar Ayla de Murat e ele foi mais uma vítima. Seu pai ameaçou a filha dele, e eu entendo perfeitamente por que ele aceitou participar de tudo, o que me deixou mais surpreso na atitude de Teo foi quando ele veio até mim contar o que estava acontecendo, pois corria o risco de perder a filha para sempre. Mas, mesmo assim, ele arriscou tudo por amor a você.
— Não vovô! Não fale isso, não quero saber de Teo — disse levantando-se — Fale-me sobre meu pai. Por que ele agiu dessa forma? Onde ele está agora?
— Como disse, ele queria separar Murat de Ayla, seu pai sempre foi rígido e você bem sabe que ele nunca aprovou o romance dos dois. Deixei a decisão nas mãos de Murat sobre o que fazer com ele e seu irmão, sabiamente, decidiu enviá-lo para Rize, para se unir a um dos seus tios, meu irmão. Seu pai agora está tentando se encontrar, orando pela misericórdia de Deus e para que seus erros sejam perdoados.
— O senhor acha que Deus não o perdoou ainda?
— Claro que sim, filha. Seu pai já mostrou arrependimento e Deus nos perdoa com amor. Eu também já o perdoei, assim como toda a família, mas ele ainda não se perdoou, sente culpa, rancor e vergonha por tudo que fez. E acredite minha flor, não há dor maior que a culpa e a vergonha.
— Ele poderia ter tirado a vida de Murat ou a de Ayla.
— Ou a de Teo!
Derya se sentiu incomodada ao ouvir o nome dele.
— Não me preocupo com ele!
— Não? Mas Teo tem uma filha, uma garotinha como a nossa Maria. Imagine se algo ruim acontecesse a ele, essa garota ficaria desamparada. Não tem mais a mãe, só tem a ele — insistiu — Filha, não deve culpá-lo de nada, mesmo se ele tivesse culpa em algo mereceria todo o seu perdão, pois fez a coisa certa, salvou a honra de Ayla, o coração de Murat e está tentando salvar a sua vida. Se o odiar, estará agindo como seu pai e sendo injusta.
— Não consigo perdoá-lo.
— Por que tornou-se uma mulher dura demais.
— A vida militar faz isso conosco, nos deixa menos sensíveis e isso é necessário para encararmos um combate.
— Você está errada, Derya! Para ser um bom militar precisa-se de sensibilidade, de amor e de justiça. Ao encarar uma batalha você precisa ser justa ao decidir se precisa ferir alguém, de sensibilidade para decidir como vai ferir alguém e de amor para seguir após essas decisões. Não se faz um bom militar com ódio, com rancor, dando-lhes estímulos como vingança ou medo — esclareceu — Por que acha que estamos enfrentando momentos tão tensos no mundo? Alguém está treinando seus exércitos com as razões erradas. Você não se tornará esse tipo de militar, é uma sargento, comanda pessoas, tem que saber pelo que luta, tem que passar para os seus subordinados que nada mais que justiça deve ser feita. Nunca dê demais e nunca dê de menos, Derya.
— É difícil em meio a uma tormenta encontrar uma forma justa de agir, vovô!
— Sim, você tem razão! Mas todas as batalhas que você lutar, dentro e fora do quartel vão te ensinar a decidir como deve agir. Isso se você permitir. Vai aprender como é fácil ser justa, assim que fizer justiça.
— O senhor quer que eu perdoe Teo!
— Não, porque não há o que se perdoar. O Capitão não fez nada de errado. A não ser que exista mais em toda essa história do que você e ele estão me contando.
Derya engoliu em seco andando de um lado para o outro.
— Não há nada a mais! Apenas meu orgulho ferido, pois sei que ele amava Ayla e só se interessou por mim por que ela não o quis.
— Isso não é verdade. Sou um homem velho, mas não sou tolo. Eu sei o que Teomam sente por você. Um homem jamais chega até onde ele chegou por uma mulher que não ama — disse a olhando sério — Ele pode ter se interessado por Ayla, assim como você ela é uma mulher linda, inteligente e corajosa. Mas você quem despertou o coração dele para a vida outra vez, foi por você que ele se arriscou. Por você ele deixou a única filha na Suíça. Por você ele voltou a vida que jurou não viver mais. Se Teomam está de volta ao exército é por sua causa. Minha querida, se isso não for amor, eu não sei o que pode ser.
Derya suspirou, baixando os olhos.
— Você está magoada com você mesma e não aceita.
— Fiz algo horrível vovô! — disse chorosa. Sentando-se novamente.
— O que fez querida? Me conte.
— O senhor jamais vai me perdoar — falou deixando as lágrimas rolarem.
— Sinta-se perdoada.
Derya continuou de cabeça baixa não se sentindo digna de encarar o avô. Mustafá se aproximou dele e segurando-a pelo queixo levantou seu rosto molhado a fazendo encará-lo.
— Me conte!
Ela olhou-o sentindo a piedade dos olhos cansados do avô.
— Sim, vovô!

☵☵☵ ✤ Δmor na Capadócia ✤ ☵☵☵

Teo chegou a casa de Mustafá mais cedo do que esperava. Não deixaria Derya fugir mais uma vez, precisava dela em sua vida. Sabia que causara muito mal, porém estava disposto a se redimir.
Bateu a porta e Selin o recebeu.
— Ah! Teo, que surpresa, Derya não avisou que viria. Entre, por favor, eles estão no escritório conversando. Vou avisar que está aqui.
— Não, não se incomode, eu espero!
— Certo, então sente-se. Aceita algo?
— Uma água, por favor!
— Vou buscar. Fique a vontade.
— Obrigado!
Teo sentou-se olhou ao redor lembrando-se da última vez que esteve ali. A casa não havia mudado em nada. Era bom saber que algumas coisas permaneciam do mesmo jeito.
Ouviu de longe o que parecia ser um choro. Era Derya, constatou. O avô deveria ter confirmado o seu relato sobre o pai dela. Sua pobre çiçek, deve ter sofrido muito ao entrar no exército, imaginava o quanto foi humilhada, pressionada e hostilizada naquele lugar.
— Aqui está! Disse Selin voltando.
— Obrigado!
Ela o olhou atenta.
— Tem certeza que não quer que eu os avise que está aqui?
— Tenho, prefiro deixar que eles conversem a sós. Derya tem muito a ouvir.
Ela assentiu.
— Está sendo um momento muito difícil para ela, não é?
— Sim, não está conseguindo lidar com a verdade.
— Dê tempo a ela. Derya sempre foi uma ótima menina, as vezes muito medrosa é superprotegida, então tudo para ela acaba sendo mais difícil. Nos surpreendeu muito quando decidiu ser militar.
— A mim também. Ninguém acreditava que ela pudesse durar tanto tempo e ainda conseguir um cargo. É sem dúvida um motivo de orgulho para vocês.
— Sim é! Mas a queríamos aqui, perto da família e trabalhando com algo mais seguro.
— Ela virá, eu a trarei de volta. Voltei a Turquia para isso.
Mal terminou de dizer suas palavras e Mustafá apareceu na sala acompanhado da neta que surpresa olhava para ele.
— Capitão Karadeniz!
Ele levantou-se para cumprimentar o velho senhor.
— O que faz aqui? — perguntou Derya.
— Seja bem vindo novamente! — disse Mustafá sobrepondo sua voz a da neta.
— Obrigado General.
— Sente-se, — pediu Mustafá — Derya estava me contando que finalmente soube da verdade sobre tudo que aconteceu. Espero que agora esteja tudo bem entre vocês.
Falou ele pressionando uma resposta positiva da neta que o olhava enigmática.
— Eu também espero que sim! — disse suspirando e a olhando esperando uma resposta, mas Derya nada disse.
— Quem cala consente, Capitão. — disse Mustafá seguro — Graças a Allah tudo foi esclarecido. Minha família cumpriu seu dever com a injustiça que causou a você. Espero que a partir de hoje sejamos amigos. Minhas casa está de portas abertas para receber você e a sua filha. Aliás, como ela está?
Derya viu pela primeira vez desde o reencontro, Teo sorrir.
— Está ótima! Ficou chateada quando eu disse que teria que viajar, mas ela é muito doce e compreensiva, me entendeu e pude vir sem problemas, mas tenho que ligar para ela todas as noites se não fica brava comigo.
Mustafá sorriu.
— É compreensível, ela se preocupa com você, sem falar que já passaram muito tempo longe um do outro. Eu adoraria conhecê-la, quando vai trazê-la a Istambul para nos apresentar. Tenho certeza que Derya está tão curiosa quanto eu, ela adora crianças, não é querida?
Teo e ela se olharam e Derya apenas assentiu.
— Um dia minha Derya me dará muitos netos e...
— Vovô... — cortou-o — Incomoda-se se eu subir e descansar um pouco? A viagem foi muito cansativa.
— Claro que não querida, pode ir, ficarei conversando com o Capitão.
Ela limitou-se em assentir e saiu, deixando-os a sós.
— Como ela reagiu? — perguntou Teo a Mustafá com ar preocupado.
— Mal. Mas com o tempo as coisas vão ficar mais claras na cabeça dela — disse o velho senhor — Derya não mudou. Por fora, demonstra segurança e dureza, mas não é isso que sente por dentro. Ainda é a mesma menina sensível que todos conhecem. Seja paciente Teo, ela está magoada com muita coisa que aconteceu e precisa se sentir bem, pois entendi que a decepção que sente é consigo mesma e não com você.
— Gostaria de poder fazer algo para acelerar esse processo.
— Não viva ansioso Teo, uma fruta que não amadureceu tem um sabor amargo. Saiba esperar e provará umdoce sabor.
A noite, todos se juntaram a mesa para jantar, os homens falavam sobre a carreira militar, o avô entusiasmado falava sobre como era no seu tempo e Teo parecia muito interessado. Derya não havia trocado nenhuma palavra com ele, passou toda a tarde no quarto o evitando, Teo também havia sido instalado em um dos quartos do andar de cima, ouviu ele e o avô conversando quando se dirigiam ao quarto de hospedes. Ele também passaria a noite em Kadikoy, pelo visto só sairia de lá com ela.
Olhou-o disfarçadamente, talvez ele não tivesse culpa em tudo, mas a magoou mesmo assim, poderia ter confiado nela e contado o que estava acontecendo. O ajudaria e evitaria tanto sofrimento. Porém Teo preferiu se calar e continuar com aquele armação absurda, mas também tinha a filha dele, se falasse poria em risco a menina e poderia perdê-la, mesmo assim ele falou, contou tudo ao seu avô e evitou que uma injustiça fosse feita, só Deus sabe o que poderia ter acontecido se ele não tivesse tido aquela atitude. Mas por que deixou para contar tudo após beijar Ayla, talvez Teo só tivesse percebido que não a amava após isso, ou talvez, se sentisse tão culpado por ter aceito a sua inocência que agora estava ali tentando se redimir, não era amor que ele sentia, era culpa, afinal ele também tinha uma filha.
Deus, quantas dúvidas, quantos por quês, nunca conseguiria confiar em Teo novamente e nunca perdoaria a si mesma pelas atitudes que tomou, diferente dele, não iria justificar seus atos, foi culpada e viveria para punir a si mesma pelos seus erros — pensou distraída.
— Derya! — chamou o avô e ela assustou-se derrubando a taça de água ao seu lado.
— Oh, querida! — disse Selin levantando-se com uma toalha para ajudá-la.
— Desculpe tia, eu estava distraída — Derya levantou-se — Desculpem, mas não estou com apetite. Vou para o meu quarto. Boa noite!
Ela não esperou pela permissão do avô ou pelos cumprimentos. Se retirou indo em direção ao quarto.
— Desculpe-a por isso Teo, como eu havia dito, ela ainda está muito magoada com tudo que aconteceu.
— Não se preocupe General, serei paciente. Vou esperar o tempo que for preciso.
Já era tarde quando Derya ouviu a porta do avô ser fechada. Pela janela do quarto via as luzes da ponte do Bósforo brilharem iluminando as águas do mar. Decidiu ir ao jardim respirar um pouco da brisa fresca. Sentia saudades de Istambul, principalmente a noite. Por muitas vezes lembrava-se de quando saia para dançar com os primos e o irmão. Sentia falta deles. De todos eles.
Desceu as escadas e ao passar pelo corredor onde ficava o escritório do avô ouviu a voz de Teo, ele conversava com alguém. Aproximou-se da porta entreaberta e o viu, ele estava no telefone, parecia feliz e divertia-se com o que o interlocutor lhe dizia. No rosto, um sorriso largo que não se dissipava.
— Sim querida, eu já entendi! — disse ele — Também estou com muitas saudades suas, louco para lhe encher de beijos.
Derya endureceu o rosto. Era uma mulher.
— Pode pedir o que quiser, sabe que faço tudo por você!
Então era assim que ele a amava, tendo outra a suas costas. Teo sempre foi um traidor e continuaria sendo, pessoas como ele não mudavam, costumavam por a culpa em alguém para se sair por santo, mas nem era preciso cavar tão fundo para encontrar a podridão que se escondia neles. Mas isso não ficaria assim.
Escancarou a porta e entrou, queria ver a reação dele e o que diria a ela quando jogasse na cara dele que era um mentiroso.
Teo viu a fúria no olhar de Derya, se ela estava ali, com certeza, ouviu sua conversa e pela expressão estava imaginando tudo errado.
— Querida, tem alguém aqui que gostaria de falar com você!
Teo fez sinal para que Derya se aproxima-se, ela o olhou entre confusa e incrédula e ele insistiu. Entregou o telefone a ela que o segurou sem saber bem se deveria falar ou não. O que Teo pretendia? Ele sorriu para ela e segurando sua mão a fez levar o aparelho ao ouvido.
— Alô! — a voz infantil soou do outro lado — Papai?
Oh meu Deus! Ele estava falando com a filha — concluiu — Mas que burra!
— Fale! — sussurrou ele.
— Oi! — disse Derya sem jeito.
— Oi! — a menina respondeu — Você deve ser Derya, não é?
— Sim!
— O papai já encontrou você? Ele foi ai te buscar. Eu também queria ir, mas ele não deixou — lamentou — Quando vocês voltam? Eu estou com saudades dele!
— Eu... Eu vou mandá-lo voltar para casa o mais rápido possível  respondeu olhando nos olhos dele.
— Você não vem?
— Eu... Acho melhor não!
— Mas ele disse que só voltaria se você viesse com ele. E também prometeu que vai trazer você para fazer brigadeiro para mim, você sabe fazer brigadeiro?
Derya não pode deixar de sorrir.
— Sei sim!
— Então você vem com ele, não é?
— Eu...
— Você gosta de bruxas? Você conhece alguma? Eu não gosto delas.
— Eu também não — falou insegura com medo de falar algo que fosse contra ao que a garota acreditava.
— Graças a Deus! — disse ela suspirando aliviada — Pensei que você fosse uma bruxa!
Derya riu novamente. Além de tagarela, ela era muito divertida.
— Não, eu não sou uma bruxa!
Teo arregalou os olhos, Pinar era imprevisível.
— Então você pode vir com meu pai, eu deixo!
— Certo! Muito obrigada — disse divertida.
— De nada. O Guto também vai gostar de conhecer você.
— Guto? — olhou para Teo curiosa, pensou que ele tivesse apenas uma menina.
— Sim, ele está morrendo de saudades do papai também, por isso você precisa vir com ele. Estamos muito tristes sem o papai aqui.
Derya sentiu seu coração apertar.
— Tudo bem!
— Promete que vai vir?
— Vou conversar com seu pai sobre isso — disse sem querer se comprometer.
— Tá, então agora eu vou dormir, papai disse que não era para eu ficar acordada até tarde se não, não vou crescer. Você sabia que a gente cresce enquanto dorme?
— Não, eu não sabia — disse Derya fazendo voz de surpresa — Você é uma garota muito inteligente.
— Papai também diz isso — falou divertida — Bem, Derya, eu gostei de conversar com você, mas preciso ir. Boa noite!
Derya se surpreendeu com a independência da garota.
— Eu também gostei muito de conversar com você. Boa noite!
Ela passou o telefone para Teo.
— Boa noite, meu amor. Sonhe com os anjos! — disse ele desligando em seguida.
— Pensei que tivesse apenas uma filha.
— Tenho apenas uma. Guto é o coelho de pelúcia que ela carrega para todos os lugares.
— Ah! — disse entendendo a situação — Pinar, não é? — ele fez que sim — Tem cinco anos? — ele assentiu mais uma vez — Ela é bem...
— Madura para a idade! — completou Teo — Minha filha passou por muita coisa, quando não se tem os pais por perto deve-se aprender a se cuidar sozinha.
Teo suspirou e ela lamentou pela criança.
— Mas isso é bom por um lado, ela desenvolveu a própria personalidade.
— Sim, e apesar de entender e perceber tudo a sua volta ela não deixou de ser criança, e ainda tem aquela ingenuidade que encanta.
— Deu para perceber. Disse a ela que eu era uma bruxa?
— Claro que não, Derya! Ela adora contos de fadas e as vezes se teleporta para esse mundo, culpa dos anos de mudança que teve. Não podia ficar muito tempo em lugar nenhum, não fez amigos. Essas histórias são a única coisa concreta na vida dela.
— Ela se sente segura assim!
— Sim! Mas isso vai mudar, quero dar uma família a Pinar. Um lar. Um lugar onde ela possa viver como qualquer outra criança, que possa ter uma vida normal. Possa sair do mundo da ficção e aproveitar um mundo real.
Derya assentiu e eles olharam-se longamente.
— Eu pensei que estivesse falando com...
— Uma mulher. Uma amante — completou — Vi em seu olhar. Sentiu ciúmes?
— Teo pare, por favor! — pediu — Eu ainda estou muito magoada com todos. Você, meu pai, minha família, vocês me esconderam a verdade durante todo esse ano, sofri, chorei, me revoltei...
— Eu imagino Derya, mas sua família não tem culpa. Eu quem pedi para que me deixassem contar a verdade, já havia escondido coisas de você e achei que era o mínimo que eu poderia fazer, olhar em seus olhos e dizer a verdade.
— Eu entendo você como pai. Juro que entendo. E admiro a forma com que protege a sua filha, mas como homem eu não sei quem você é.
— Só fiz o que fiz para proteger a minha filha.
— Tudo bem. Eu perdoo você! Mas não o quero por perto, volte para onde veio. Vá cuidar da sua filha, dê uma vida para ela, uma família, uma mãe. Ela é uma criança encantadora e merece ser feliz. Sinceramente, eu agradeço a você por ter contado a verdade ao meu irmão e ter impedido uma tragédia. O que meu pai fez com você foi terrível e me sinto envergonhada por ele. Mas Teo, o que houve entre nós acabou. Eu tenho outra vida agora, não sou mais aquela menina que você conheceu, eu não quero casar, não quero ter filhos, não mais. Vou viver com minha carreira e é só isso que quero da vida. Não há nada para você aqui. Por favor, vá embora!
Teo, parado a frente dela a olhava em dúvida, com toda aquela segurança ela parecia mesmo ter tomado uma decisão definitiva sobre a vida que queria e o deixou em dúvida.
— Tem certeza Derya, de que de tudo que vivemos não sobrou nada?
Derya suspirou.
— Quando soube que você havia beijado Ayla, tudo desmoronou Teo.
— Mas eu já expliquei que fui obrigado a isso. Não, amo e nunca amei sua prima — disse ele se aproximando mais até ficar poucos centímetros dela — Derya, você chegou em minha vida de um jeito tão especial. Eu não queria me apaixonar, não tinha essa pretensão, principalmente pela filha do homem que me ameaçava. Mas você, com seu olhar apaixonado, com atenção, inocência e docilidade derrubou minhas defesas. Não tive forças para lutar contra a encantadora flor que me olhava de igual para igual. Para você eu nunca fui um terrorista, um espião, um criminoso... No seus olhos eu era apenas um homem. Você não faz ideia de como me senti em nosso primeiro beijo... Em nossa primeira vez.
Derya sentiu a respiração ofegar ao lembrar dos momentos de amor ao lado dele.
— Pare Teo! — disse vendo-o cada vez mais perto — Não se aproxime.
Teo segurou o queixo dela delicadamente a obrigando a olhar em seus olhos.
— Como quer... Como espera que depois de ter me feito provar o amor mais perfeito, mais puro, mais sincero desse mundo eu me afaste? É impossível — disse sussurrando e aproximando-se mais — Durante todo esse tempo eu fui fiel a você. Não pensei ou desejei outra que não fosse você. É você, você Derya e mais ninguém que eu amo.
Teo capturou os lábios dela em um beijo profundo e cheio de desejo. Deslizou as mãos pelas costas macias e a apertou contra seu corpo. Levou uma das mãos aos cabelos dela e segurou-a pela nuca impedindo-a de se afastar, mas naquele momento ela nem pensara nisso, por mais que o tivesse odiado, por mais que o tivesse culpado por tudo que lhe aconteceu, era inegável que ainda o amava.
Enlaçou-o pelo pescoço com os braços e sentiu Teo suspirar. O beijo passou de exigente a terno e com doçura Teo provava os lábios de sua çiçek.
— Eu te amo! — sussurrou ele beijando o rosto e o pescoço dela — Derya, case-se comigo, quero ter você ao meu lado, quero que seja a mãe de Pinar... — Teo beijou-a outra vez e entre beijos continuou falando sobre seus desejos — Quero ter uma família com você, quero ter filhos com você...
Ela afastou-se bruscamente.
— O que foi? - perguntou assustado com reação repentina.
— Não me toque mais Teo — disse ofegante enquanto caminhava até a saída. Ele a seguiu e a segurou pelo braço.
— Me solte! — disse baixo, porém mostrando força.
— Não! — disse no mesmo tom — O que foi que fiz agora? Por acaso disse algo errado?
— Quantas vezes vou ter que pedir para que me deixe em paz, para que volte para sua filha e me esqueça? Não toque mais em mim Capitão ou não responderei por mim — disse soltando-se, virou-se para sair, mas se voltou para ele novamente — A propósito, sou uma mulher comprometida — disse saindo e batendo a porta do escritório deixando-o aturdido e abalado com a afirmação.
— Comprometida?

☵☵☵ ✤ Δmor na Capadócia ✤ ☵☵☵
Çiçek: Flor
 
Bom diaaaaaaa Canin's!
COMPROMETIDAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA?
Mas como assim, Jéssica? kkkkk
Deryaa querida, você quer enlouquecer esse Capitão? São Jorge da Capadócia segure esse homem agora...
E para quem ainda não conhece a Pinar, pode ir na minha página do facebook e encontrar um resumo sobre a personagem e fotos do avatar ;)
O que será que Derya esconde canins? Vamos fazer um bolão? kkkk Mas quem acertar vai dividir tudo com a autora emmm! hahaha
Boa semana na paz de Jesus para todos vocês!
Beijos... öpücük :)

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